#2 - Vamos falar de saúde mental


Pra você, o que passa quando se fala em saúde mental?


Aparentemente, não existe uma definição única, mas há um consenso de que não se resume apenas a ausência de um transtorno psíquico. A questão da definição imprecisa se dá principalmente pela variação cultural, social e subjetiva de valores. Entretanto, a ideia principal estaria ligada a capacidade de equilíbrio cognitivo e emocional diante do que se tem constituído internamente, resultado de nossas vivencias pessoais e as demandas externas da realidade.


Saúde mental está longe de ser uma pessoa feliz o tempo todo, já dizia Frejat: “Quando você ficar triste que seja por um dia, e não um ano inteiro. E que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero”. Tem a ver com a habilidade de lidar com os sentimentos e seus opostos com certo equilíbrio e manter-se em movimento para a vida.


Da mesma forma que a definição de saúde mental é imprecisa temos certas variações no que se admite ser a doença mental. Muitos critérios podem ser adotados a fim de determinar e diagnosticar uma doença, no entanto, o que costuma ser mais eficaz (até mesmo para tentativas de tratamento) vai envolver a percepção do funcionamento psíquico e sua interação social.


Construíram-se critérios ao longo dos anos para conciliar o que seriam as doenças e quais as consequências dessas, em geral, o que se pode considerar como indícios importantes são: a impossibilidade de escolha e de mudança associadas ao sofrimento incapacitante do sujeito. Dou um exemplo simples, um sentimento de angustia tão grande diante de tarefas do dia (mesmo que outrora fossem corriqueiras) que me faz desejar pular o dia todo e voltar para a cama com certa frequência, afetando meu trabalho, minhas relações, meu cotidiano. Obviamente que todos nós sentimos algum grau de preguiça, angustia ou dificuldades eventualmente, mas o que se tem noticia através de relatórios da Organização Mundial da Saúde é de que “Uma em cada quatro pessoas no mundo sofrerá uma condição de saúde mental na sua vida”, e essas pessoas em sua grande maioria não tiveram suporte ou consciência prévia da gravidade de sua situação.


A doença mental assusta, é um estigma social. Cada vez mais é um desafio para a saúde. A concepção de doença e de saúde mental, como tudo na vida, acompanhou o desenvolvimento da filosofia, da cultura, da religião e da medicina. Por um longo período tudo o que era considerado diferente dos padrões supracitados eram segregados dos “bons, puros e sãos”. Assim, pessoas com deficiências físicas, mentais ou moralmente “corrompidas”, desequilibradas, ladrões entre outras, eram simplesmente banidos do convívio social. Daí a existência de tantos asilos/manicômios no mundo todo. Essa história, infelizmente não é tão antiga assim, ainda hoje existe um intenso movimento de luta contra a institucionalização das pessoas bem ao nosso lado.


Foram muitos capítulos na história da saúde mental para chegarmos aqui, alguns avanços na forma de pensar a loucura e também melhorias atingidas pela medicina e pelas ciências que estudam a mente humana já permitiram alguma evolução, como o advento das medicações psiquiátricas. Mas ainda assim, o fato de não existirem exames que constatem com exatidão onde e como as doenças se desenvolvem atrapalha a compreensão do fenômeno para o público em geral. Explico melhor, o diagnóstico das doenças, normalmente, é feito através de exames factíveis, por exemplo, você descobre que é diabético porque fez um exame de sangue e não necessariamente apresentou sintomas indicativos, através do exame fica provado e você acredita no diagnóstico, começa a dieta, faz os exercícios sugeridos pelo médico e acompanhará provavelmente pelo resto da vida essa condição recém-descoberta a fim de não agravá-la, certo? Na saúde mental, entretanto, o diagnóstico é feito através de uma avaliação clínica que quase nunca pode ser comprovada por meio de exames palpáveis ao paciente, embora avanços nas neurociências indiquem possibilidades. Além disso, as complexidades da psique humana estão relacionadas com diversas outras questões subjetivas que nem sempre são aceitas e compreendidas com facilidade. Daí surge as mais diversas dúvidas, fantasmas e desculpas pra não cuidar da saúde mental.


Pois bem, chegamos aqui ao ponto principal, o sofrimento, os conflitos, as situações adversas são inerentes ao ser humano (sempre foram), mas as consequências disso no dia a dia e no funcionamento geral do sujeito é que serão materiais definitivos para pensar a necessidade de cuidados. A questão hoje é repensar saúde mental. Procurar um profissional da saúde mental para discutir e encontrar caminhos mais saudáveis deveria ser mais natural diante da pressão que a vida moderna impõe, talvez tão natural quanto procurar um clínico para um check up, um nutricionista para rever a dieta ou um fisioterapeuta por causa da dor nas costas. Os cuidados em saúde mental não devem ser vistos como uma necessidade quando o individuo já se encontra em demasiado sofrimento, mas refletidos como um desejo individual por evolução pessoal, prevenção e qualidade de vida.


"Se o desenvolvimento da civilização é tão semelhante ao do indivíduo, e se usa os mesmos meios, não teríamos o direito de diagnosticar que muitas civilizações, ou épocas culturais - talvez até a humanidade inteira - se tornaram neuróticas sob a influência do seu esforço de civilização?"

Sigmund Freud


Veja também:

TED - Saúde mental para todos envolvendo a todos

OMS - Relatório sobre saúde mental