#9 - Sobre psicanálise


No blog #1 e #4 começamos a falar sobre terapias. A partir de agora vamos desenvolver um pouco mais os temas de psicanálise, arteterapia, terapia ocupacional. Hoje vamos entender um pouco sobre psicanálise, quem é o psicanalista, o que se faz na análise.


Psicanálise é uma forma de investigação e tratamento de processos psíquicos, baseada na hipótese do inconsciente. Conta com uma metodologia própria de condução da clínica que foi desenvolvida por Sigmund Freud e colaboradores no final do século XIX e início do século XX, para qual no decorrer do tempo, muitos estudiosos contemporâneos de Freud e após ele trouxeram contribuições e abriram novas formas de concepção e exercício da clínica, sem, no entanto, deixar de lado ideias fundamentais.


Hoje se dá em diversos settings, basta esta dupla analista-analisando disposta a iniciar esta relação. Evoluiu diante das necessidades atuais e também diante das demandas de quadros que apresentam resistência a um processo terapêutico clássico e modelos de serviços. Entretanto, correntemente se dá ainda nos moldes originais, dentro de um consultório, na presença do analista, de um divã, com frequência semanal mínima, tendo melhores “resultados” quanto mais sessões semanais se disponha, diante de um contrato estabelecido de horários, duração, preços, forma de pagamento, faltas, etc. A regra de ouro é que se fale livremente tudo aquilo que vier à mente.


Destina-se a todos aqueles que identificam alguma forma de mal-estar, funcionamentos repetitivos que causam sofrimento, ansiedades e angustias que não se consegue nomear e se deseja olhar e refletir. De forma concisa Freud resume no verbete: se propõe a investigação dos fenômenos psíquicos através da fala, evidenciando significados inconscientes das palavras, ações, produções imaginárias (sonhos, fantasmas, delírios) a fim de gerar potência de agir diante de seus conflitos e a realidade que o cerca.


A influência da psicanálise no pensamento e na cultura são inegáveis, desde o pensamento médico psiquiátrico que em grande escala ainda se utiliza dos estudos de quadros e teorias que explicam o funcionamento da psique, até a vida cotidiana quando ouvimos muitas frases ou brincadeiras referindo-se à psicanálise e à Freud, dentre elas “Freud explica” quando cometemos atos “sem sentido” ou não conseguimos explicar algo através de uma lógica clara e direta, ou mesmo a frase “as vezes um charuto é só um charuto” quando alguém tenta dar sentido à alguma coisa e nos sentimos incomodados com a tentativa.


Bem, como citamos, a psicanálise teve uma repercussão muito grande, causou uma revolução no pensamento humano e também o que podemos chamar de ferida narcísica ao colocar o homem diante de uma questão muito delicada e por vezes assustadora que é, falando de forma grosseira a fim de simplificar, a ideia de não conhecermos ou controlarmos todo o nosso psiquismo e, portanto, agirmos de acordo com forças causadas por vivências ou traumas escondidos numa instancia “secreta” que no entanto, pasme, influencia nossa vida diretamente.


Para alguém que se sente dono de seu pensamento e gosta de controlar todas as coisas essa concepção soa até ofensiva, assim como a ideia de um desenvolvimento psicossexual infantil e desdobramentos da influência da sexualidade nas nossas atitudes, Bom... é difícil mesmo, mas muito do preconceito se dá por um conhecimento raso das teorias e da resistência ostensiva do ser humano em encarar fragilidades, muito preso a ideia de domínio de si e à moralidade advinda da cultura.


A psicanálise se transforma, se desenvolve e luta para sobreviver diante da rapidez e fluidez dos processos contemporâneos, não costuma ser um processo de resposta rápida e certeira, demanda tempo, persistência e abertura daquele que se propõe. Não diz respeito puramente a ideia de conhecer-se mais, é o conhecer-se mais e fazer uma mudança de posição diante da torrente de recordações, associações e elaborações feitas e contrapostas às nossas ações, nosso funcionamento cotidiano, fantasmas, sonhos, atos falhos, desejos.


Quem é o psicanalista? É um profissional que passou por formação em psicanálise e que não é oferecida por universidades, mas por grupos, sociedades ou institutos de psicanálise, e pode ser tão longa e aprofundada quanto a formação de outros profissionais. O psicanalista conclui sua formação depois de passar por três tipos de atividades: estudo teórico, análise pessoal e atendimento supervisionado. Psiquiatras, psicólogos, e também profissionais de outras áreas, podem fazer formação em psicanálise e se tornarem psicanalistas.


Jorge Forbes, psicanalista e escritor começa seu artigo “Psicanálise: Uma questão de querer” (1987) com a seguinte frase de Lacan e reflexão:


“ E o ser humano, não somente não pode ser compreendido sem a loucura, como não seria o ser do homem, se não trouxesse em si a loucura, como o limite da liberdade”


Quem pode entrar em uma análise? Quem pode fazer uma análise? Quem pode concluir uma análise?


Aquele que pode escolher, ou melhor, aquele que pode suportar a necessidade da escolha. Esta resposta equivale à formula: faz análise quem quer.